Cartas do Brasil
De Jota Alves
A força do sorriso carioca
Há muito eu não via tanta gente, junta, alegre, sorrindo-rindo, como no show que abriu os jogos do Pan no Maracanã. Posso dizer que passei trinta anos de minha vida assistindo, participando, organizando e criando eventos alegres e emocionantes, alguns dos quais mega, como o Dia do Brasil no centro de Nova York, com um milhão de pessoas.
Logo depois da perestroika de Gorbachev voltei a Moscou e não gostei do que vi e senti. O moscovita não ria, sorumbático, confuso e perplexo diante do caos pré-capitalista que se instalava. Bem diferente dos meus anos de universidade Patrice Lumumba.
Mas, mesmo com os desajustes e conflitos da nova era, com os atentados à bomba, com o surgimento de máfias e o aumento da criminalidade, Moscou continua atraindo mais turistas, no verão, e para as suas noites brancas com balé e circo, vodka e caviar. No estádio do Dínamo, semanalmente, há competições esportivas internacionais. Os atletas premiados continuam sendo homenageados como heróis do povo.
Depois do setembro demolidor das torres gemeas, o nova-iorquino, costumeiramente, voltado para si mesmo, mas irônico e pícaro, ficou como a shadow of a smile.
Mas, a cidade nunca deixou se abater. Todo dia é dia de festa em Manhattan, a principal das cinco ilhas que formam a grande New York. Sete dias da semana, o Madison Square Garden-um maracãnanzinho-é a arena de competições mundiais, palco de shows memoráveis com astros e estrelas do cinema e da música.
A Broadway continua cada vez mais espetacular. Ingressos para seus teatros são vendidos e esgotados com um ano de antecedência. Todos temem balas e aviões perdidos, mas os museus, exposições, bares e restaurantes continuam lotados. Wall Street dando as cartas.
New York, New York, a canção imortalizada por Frank Sinatra e Liza Minelli, a Cidade Maravilhosa dos nova-iorquinos, continua provocando emoções quando cantada nos eventos.
Vivi dois grandes revivals de New York. Na administração do prefeito Beame a cidade estava em decadência, no fundo do poço. O crime organizado em alta. Assalto e roubo, por toda parte. Fui amarrado, no meu escritório, na Little Brazil, Rua 46. Nos cinemas o Poderoso Chefão era o grande sucesso. No Little Italy o mafioso Joe Gallo caiu crivado de balas. Parecia parte da vida de Don Corleone. A troca de tiros dos mafiosos fazia crescer as bilheterias do filme.
Representando a comunidade brasileira eu estava na abertura do Columbus Day (o Dia dos Italianos) quando o capo da família Gambino foi baleado. Rebeliões nos presídios e protestos raciais pelas ruas. Quebra-quebra, vandalismo. Perigoso sair à noite.
Na área do Times Square um crime era praticado a cada minuto. A Broadway sem investidores, com teatros vazios, parecia terminal.
Os prefeitos Lindsay, Koch e mais tarde Giuliani, foram fundamentais para o grande revival da cidade. Giuliani mais ainda por ser o prefeito quando do maior ataque terrorista do mundo e por ter sido vitorioso com a tolerância zero.
Mas, a grande força da cidade que nunca dorme vem do nova-iorquino que veste a camisa da cidade porque se orgulha dela. O estrangeiro que nela trabalha e vive orgulha-se de ser chamado de nova-iorquino. Todos querem dar uma mordida na Big Apple e saboreá-la.
Gostei do espetáculo que os cariocas ofereceram às Américas e a nós mesmos. Todos sorriam, organizadores, atletas, voluntários. Os bailarinos, os ritmistas, os artistas, transbordavam alegria. Cidade Maravilhosa com o sotaquinho baiano de Daniela Mercury e o sorriso da Miss Brasil levantavam o astral de qualquer pessoa.
O Rio de Janeiro passa por um revival, ou aquilo que nós chamamos de “volta por cima”. O espetáculo de abertura e os jogos pan-americanos mostram isso.
O poder público tem que sair da armadilha em que o meteram o delírio ideológico, a corrupção, o trololó político-demagógico-populista e investir numa continuada agenda de shows, espetáculos, concursos das belezas e maravilhas humanas, festivais, competições esportivas locais, nacionais e internacionais, cada vez melhores.
O público lotou o Maracanã, gostou e participou do que viu, por que o que lhe ofereceram foi de qualidade, despertaram seus melhores sentimentos e desejos.
Cidades como Paris, New York, Londres, Madrid, Buenos Aires, não se deixam abater por tsunamis naturais ou humanos. O Rio tem que enfrentar os seus demônios com todas as armas disponíveis e uma delas, poderosa, está na enorme energia positiva do carioca.
Para o Rio não é difícil apagar imagens negativas. Suas qualidades e suas maravilhas são infindáveis. Temos que promover o Rio no exterior, permanentemente. Atrair investidores.
O Rio precisa de mais e mais espetáculos. Bem organizados, com segurança total e produzidos para levantar o orgulho e os melhores sentimentos do carioca, como aconteceu na abertura do Pan Americano. Apostar e insistir na qualidade dos eventos.
A entrega e a dedicação dos voluntários que trabalham no Pan devem ser prestigiadas e direcionadas para novas tarefas a favor da população. E o ideal é que o aparato de segurança não seja desmontado para que o riso seja, sempre, maior que choro e lágrimas.
Foi bonito, emocionante e contagiante ver cem mil cariocas, juntos, repassando brasileirice, energia e a força do sorriso coletivo para a cidade que eu aprendi a amar, a promover e a exaltar por onde andei, trabalhei e vivi.
Parabéns à pátria carioca. O sorriso move obstáculos.
20/08/2007
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