Entrevista: Elizabeth Rocha Salgado
Por Clarissa Mattos
“Eu faço a minha coisa e as pessoas chamam de poesia”
Um homem de 73 anos no meio do nada no norte da Holanda e o seu solitário dia-a-dia. Essa história não encheria os olhos de muita gente, mas não passou despercebida aos castanhos e irrequietos olhos dessa brasileira, mineira, que capturou a peculiar beleza da rotina de Jan - um fazendeiro que após a morte da mãe, vive sozinho em Groningnen - e a transformou em imagens poéticas e premiadas.

Elizabeth Rocha Salgado, com o documentário “Zo is dat”, é a ganhadora do Tuchinsky Award de 2006. Um prêmio concedido desde 1984, ao diretor do melhor filme apresentado como exame final da Academia Holandesa de Cinema e TV. Numa tradução quase literal, “Zo is Dat” poderia ser traduzido como “Então, é assim” e, mas do que o simples cotidiano de um fazendeiro, revela com extrema delicadeza e poesia, uma verdadeira lição de vida.
O site Brasileiros na Holanda teve a oportunidade de conversar com ela e conhecer um pouco mais do filme, da sua vida e dos novos projetos. Aqui você acompanha como foi esse bate-papo sobre cinema, educação, vida e aprendizado.
BRASIL E HOLANDA
C.M: Vamos falar um pouco da sua vida no Brasil e de como o cinema entrou em cena.
Sou de Juiz de Fora e venho de uma família grande. Tenho mais duas irmãs e um irmão e ainda dois tios e uma tia, que também foram criados como irmãos. No Brasil, estudei jornalismo e me especializei em rádio e televisão. Na Universidade Federal de Juiz de Fora, havia uma ilha de edição muito antiga e lá os estudantes faziam muitos videos com uma única e velha câmera VHS. Apesar de tudo ser muito precário, lá fiz vários curtas - inclusive um curta de ficção de 30 minutos e assim, fui me descobrindo. Assistia vários filmes em casa e através deles, fui analisando as cenas e me aprofundando. Depois fui pro Rio de Janeiro e trabalhei em jornal de esportes, rádio, sempre como estagiária ou iniciante.
C.M. :Por que a Holanda?
Há onze anos fiz intercâmbio aqui na Holanda. Voltei pro Brasil, estudei jornalismo e sempre que tinha oportunidade voltava; no período de férias ou greve da faculdade, por exemplo. Na época do intercâmbio, eu conheci o meu primerio amor. Ele morou no Brasil dois anos e na época da faculdade abriu uma agência de propaganda com um amigo. O empreendimento não deu certo e a gente veio pra cá, pra continuar a estudar. Já sabia que queria fazer cinema e em especial, na Academia Holandesa de Cinema.
C.M. : Foi difícil para ingressar na Academia Holandesa de Cinema?
Sei que para entrar na Academia Holandesa de Cinema não é fácil. Para ter aprovada a minha admissão, enviei fotos que havia feito em um orfanato no Brasil, um roteiro de ficção para um longa, cuja história acontece num presídio e ainda dois curtas. Tudo traduzido em holandês.
C.M: Como foi estudar aqui ? Quais as diferenças em relação ao Brasil ?
No Brasil, pelo menos na minha época, cinema era muita teoria e pouca estrutura. Quando me formei chegaram os primeiros computadores na faculdade. Para se ter uma noção: existia apenas uma câmera VHS para todos os alunos. A teoria no Brasil é melhor, mas aqui existem os recursos e o dinheiro que transformam a teoria em prática.
C.M. : Que outros trabalhos você fez no Brasil antes de vir para cá?
Destaco dois curtas. O Brava Mulheres, que é um documentário de 6 minutos sobre as mulheres na favela da Rocinha e o Casal de Três que é um curta baseado num conto de Nelson Rodrigues. Estes foram trabalhos que apresentei para ingressar na Academia.
ZO IS DAT
C.M. : Passando para o aclamado “Zo is Dat”. A idéia original era um documentário sobre índios. Como um fazendeiro, no meio do nada, na Holanda se transformou numa alternativa. Conta um pouco dessa virada?
O projeto de índios não foi aprovado. Não pelo dinheiro, mas pelos riscos que, segundo a Academia, envolvia o projeto. Levar uma equipe de filmagem para uma reserva indígena no Brasil não é uma coisa fácil de aprovar aqui na Holanda. Quando o projeto com os índios não deu certo, pensei em uma ficção, mas a escola não permitiu a troca. Então precisava encontrar um outro tema e fui buscar no Norte da Holanda, em companhia de uma amiga. Assim, através do pai dela, conheci o Jan.
C.M: Como foi trabalhar com o Jan? O que você aprendeu com ele.
Ele adorou e aceitou de primeira. Só se assustou um pouco quando cheguei com toda a equipe e todo o equipamento. A verdade é que toda atenção e tensão das filmagens, trouxeram energia positiva pra vida dele.
Aprendi com ele a aceitar a vida como ela é. O brasileiro vive em extremos. Tudo é excessivo, seja na alegria ou tristeza. Vejo no Jan uma coisa mais sóbria. Ele estuda a situação antes de reagir. Claro que ele é sozinho e sofre de solidão, mas ele aceita e tenta viver da melhor forma possível. Afinal, tanto a felicidade quanto a tristeza fazem parte da vida. Sem tristeza não há poesia, já dizia Vinícius de Moraes.
C.M. : Tudo o que li sobre o filme, exalta a beleza poética das imagens. O que despertou você para essa beleza ?
Não consigo responder. Eu faço minha coisa e as pessoas chamam de poesia. É mesma coisa que perguntar ao Carlos Drummond de Andrade para explicar sua poesia. Impossível.
FUTURO
C.M: Algo mudou para você depois do Tuchinski award?
Aprendi a ter mais confiança no que faço. Já trabalho com cinema há 11 anos, buscando a minha forma, o meu estilo e apesar de gostar de ficção, me especializei em documentário. O prêmio é uma prova de que as pessoas gostam do que eu faço.
C.M: Quais são os seus novos projetos?
O meu próximo trabalho é o projeto com os índios que agora foi retomado e conta com o aval de grande produtora holandesa de filmes.
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