Caminho Inverso
A segunda entrevista da série apresenta o casal Kátia Wille e Hans Blankenburgh, a brasileira e o holandês que, com a marca Zigfreda, estão vestindo os modernos do Brasil .
"Queremos mostrar que o Brasil é um país de hoje, e não do futuro"
(Hans Blankenburgh )
Até encontrá-los num dia de outono em Leiden, cidade universitária ao
sudoeste de Amsterdã, eu só havia visto Kátia Wille e Hans Blankenburgh por fotografias publicadas nas páginas que o casal mantém na internet. Nelas, os dois aparecem como os últimos da fila de modelos, posição que em geral indica os donos da marca recém-desfilada na passarela. Perdão: Kátia, Hans e o gato Ziggy, mascote da Zigfreda, a etiqueta de moda que de dica de insider passou a absoluto must have, no Brasil.
Foi metida num Zigfreda, por exemplo, que Marisa Monte se deixou fotografar para a revista francesa; o colorido e o traço inconfundível de Kátia sem dúvida 'fazem o estilo' Ivete Sangalo, quem também tem lá seu 'modelito'. Patrícia Pillar não é cantora, mas também gosta da proposta, assim como Bebel Gilberto. "Minhas roupas não estão nas novelas, mas em quem as faz", observa a estilista, uma mulher de feições e porte delicados, vivaz e de gestos enérgicos.
Kátia é alguém que não poderia ser mais fiel ao próprio sobrenome: Wille é palavra alemã que em português significa "vontade". Movida por ela, conseguiu convencer 12 professores da Universidade de Amsterdã a escreverem cartas recomendando sua a admissão no curso de mestrado antes mesmo de "se formar". Em 1997, ao chegar à Holanda com um diploma de Moda nas mãos, ela não imaginava que em lugar de uma bancada de desenhista, ocuparia, a princípio, os bancos da faculdade, repetiria parte da graduação e concluiria um mestrado em gerenciamento de Moda, simultaneamente.
No dia em que conheceu Kátia, numa festa em casa de amigos no Rio de Janeiro, Hans Blankenburgh, um holandês de bem com a vida, soube que seu destino passava pela cidade natal de sua futura mulher. Uma vez na Holanda, cinco anos transcorreriam até que o leonino e ariana resolvessem se lançar numa aventura que para muitos não passava de loucura: deixar os Países Baixos e sua segurança para trás, para começar uma vida nova no Brasil, fazendo de um sonho, realidade.
Como de praxe na Holanda, foi tomando café que Kátia e Hans chegaram a algumas decisões importantes: criariam seu próprio negócio, assumiriam-se como visionários, mudariam-se pelo Brasil. Foi também o café que inspirou o nome da marca: Naquele dia, não era Douwe Egberts o que o casal bebia; era Segafredo.
- O que os levou a mudarem-se para o Brasil?
KW – A gente tem uma paixão pelo Brasil, pela maneira como as coisas
acontecem lá. Como brasileira, eu não via jeito para a minha marca aqui. No
Brasil, você cria e tem a costureira do seu lado, que corta a roupa
exatamente como você imagina. Já aqui, as coisas não fluem tão
rapidamente. A Holanda é boa em aspectos como conectividade, facilidade de
locomoção e eficiência. O holandês é muito eficiente. Mas em termos de
criatividade e flexibilidade, o lugar é o Brasil.
- Hans, você continua satisfeito com a mudança?
HB – Em 38 anos eu já me mudei 14 vezes. Moro no Rio há cinco anos. Na
verdade, o Rio é o lugar onde passei mais tempo até agora (ri). Nós fomos
muito criticados quando tomamos a decisão de ir morar no Brasil. Os pais da
Kátia são muito parceiros e nos ajudaram bastante.As pessoas aqui achavam
que seria um erro ir para o Brasil, mas nós fomos com a 'cara e a coragem'
e, por enquanto, vamos continuar lá! Eu sempre tive um espírito empreendedor
e desde que estive no Brasil pela primeira vez, em 1994, me apaixonei pelo
país. Para mim não foi difícil.
KW – Às vezes as pessoas ficam em determinado lugar porque gostam de
dinheiro. A mim diziam que eu estava "louca", que devia mudar de sonho. Mas
quando você tem um projeto de vida, é criativa, precisa se expressar.
Eu já tinha viajado meio mundo quando resolvemos criar a Zigfreda. Meu
trabalho era desenhar e viajar (Kátia trabalhou como diretora de estilo para
as marcas Nike e O'Neill, durante os anos em que morou na Holanda), nossa
vida era uma loucura e mal nos víamos. Para mim, o Rio é, e sempre será a minha
casa.
- Trocar uma vida estável aqui na Holanda, por uma de 'incertezas', no Brasil, para muitos é realmente loucura.
KW – A gente sempre teve a necessidade de ter um projeto em comum. Na
verdade, depois dos acontecimentos do 11 de setembro, algumas coisas ficaram
claras para nós. Hans tinha acabado de sair do Rio para Amsterdã, colegas da
minha empresa, da empresa dele estavam em Nova Iorque naqueles dias. Tudo
aconteceu de certa forma muito proximamente de nós. Nos mudamos em dezembro
daquele ano. Foi o momento certo. Mudar é sempre difícil, você tem que se
adaptar ao novo. Para mim também foi difícil chegar aqui na Holanda e
descobrir que eu teria que depender do Hans, que poderia não ter emprego.
HB- No começo eu tive medo de dizer qual tinha sido meu último salário
na Holanda. As pessoas diziam: "Mas você é muito caro"(Hans desempenhou
várias funções executivas aqui na Holanda). Então, enquanto Kátia ia
trabalhar, eu ia à praia. Depois de um tempo fiquei enjoado. Foi quando chegou
a hora de botar a empresa para funcionar.
KW - Começamos em casa mesmo, com duas costureiras na área de serviço. Hoje
temos um ateliê no Leblon.
- Qual é a nacionalidade da Zigfreda?
HB - Ela é mista. A criatividade é brasileiro e o ramo dos negócios, holandesa. Com essa quimica, A Zigfreda é uma empresa que está crescendo e se firmando como um novo conceito de estilo.
- Viver no Rio não é assustador?
HB – Não tanto, só que eu tento evitar... Até a mim eles já assaltaram,
então faz parte da vida. Eu não vou fugir de minha cidade preferida no
mundo! Precisamos retomar a cidade, precisa mais controle no governo. Fugir
não é solução.
- Vocês acabaram de participar de mais uma "São Paulo Fashion Week", evento em que já são veteranos. Fazer moda no Brasil está valendo a pena?
HB – Neste SPFW nós não fizemos desfiles. Nós nos concentramos nas vendas
para o exterior, que já estavam em nossos planos. Nossa estratégia foi
voltada para a exportação. O mercado nacional está em crise, portanto nós
sabíamos que era o melhor a fazer. O bom de participar de um evento deste
porte é a projeção internacional. Você aparece em muitas revistas
importantes. É um retorno razoável, considerando-se o investimento que se
faz, em termos de Brasil. Já estamos presentes nos mercados do Japão,
Inglaterra, Portugal e África do Sul. No verão, devemos chegar aos Estados
Unidos, mais especificamente a Nova Iorque e Los Angeles.
- Quanto custa participar de um desfile desses?
HB – Uns 50 mil euros, dos quais pelo menos 1/3 devem sair dos bolsos do
participante. Naturalmente há necessidade de um patrocinador. Nosso próximo
desfile será em junho. Pelo menos é o que estamos planejando. Zigfreda, um conceito em moda que conquistou o Brasil
- No Brasil, as estrelas da TV parecem adorar as roupas de vocês. Isso nãoestimula os negócios?
HB – Até o final de 2008, a nossa marca deverá ter lojas próprias.
Estamos buscando parcerias, mas os planos prevêem lojas em São Paulo, no Rio
de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Nossas roupas já vestem Marisa Monte,
Ivete Sangalo, Bebel Gilberto, Patrícia Pilar e muitas outras atrizes da TV.
Isso é bom para a imagem(ri).
- Por que as roupas de vocês agradam tanto?
KW – Porque buscamos transmitir às pessoas, através de um vestido nosso,
que elas são o melhor que podem ser. Trabalhamos apenas com tecidos 100%
naturais (algodão, seda e linho). Os processos criativos - isto é, o meu
desenho à mão - e de produção – a transferência para o pc, depois a
estamparia, o tingir, interagem. Fomos pioneiros, por exemplo, em estamparia
sobre lese. O que eu sugiro é uma moda feminina, transparente, atual.
- Você costuma usar experiências pessoais para criar suas estampas e
desenhos?
HB – Sim, de certa forma. A nova coleção se chama "Labyrinth"
(Labirinto) e tem um quê autobiográfico. Como nós estamos achando os nossos
caminhos na vida, nós vivemos como se andássemos num labirinto. Às vezes você
acha o caminho certo, outras vezes precisa voltar atrás e escolher um novo
caminho que leve à saída do labirinto. Uma das estampas, por exemplo,
representa o plano de uma cidade – o mundo hoje em dia é um labirinto, com
suas cidades grandes e complexas, suas ruas...
- Kátia, como é trabalhar no Brasil depois de anos atuando no mercado holandês?
KW – Um dos maiores problemas é que a mesma flexibilidade que ajuda em
algumas coisas, atrapalha em outras. O cumprimento de prazos, por exemplo.
Este é um lado chato e o Brasil perde muito com isso no mundo dos negócios.
Outra coisa é a tecnologia: cara e ineficiente.
HB – Os juros também são muito altos e o mercado tem falta de
profissionais. Todo mundo quer ser estilista, mas uma empresa precisa de
técnicos e de pessoas com outras habilidades em desenho. Entre os
fornecedores brasileiros o grau de profissionalismo é baixo – nunca entregam
na hora, enrolam muito e são pouco comprometidos. Por outro lado, o trabalho é flexível, a entrega do protótipo é rápida: entre a entrega do desenho e a
confecção da primeira amostra decorrem três semanas. Há artistas fazendo
coisas incríveis. No Brasil há uma informalidade que tanto acelera quanto
freia os negócios. É uma faca de dois gumes.
- Dentro destas condições como atender o mercado externo com eficiência?
HB – Decidimos concentrar as vendas nos showrooms de Londres e Paris
(quando desta entrevista, o casal Blankenburgh planejava transformar sua
casa em Leiden no braço europeu da empresa). Temos alguns distribuidores
que tomam contas das vendas.
- Onde vocês se vêem no futuro?
HB- Muita coisa no Brasil ainda precisa mudar. Eu quero dar uma contribuição ao
país. Quando você mora no Brasil, precisa se tornar um pouco brasileiro.
Você perde a imagem de uma Brasil que é só praia. O que eu e a Katia
esperamos é conseguir fazer negócios no Brasil de um jeito justo e que
mostre que o Brasil é um país de hoje – e não do futuro.
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